"Como se esperava, vem aí (mais) betão. A resposta ao atraso estrutural do país, às dificuldades no emprego e às assimetrias regionais deu nisto obras públicas, enormes investimentos, infra-estruturas. O Estado assume o comando da dinamização da economia. Uma lista pletórica se anuncia: ele são auto-estradas, pontes, TGV, barragens, aeroporto. Para trás fica o conhecimento, a qualificação das pessoas e a valorização do território, a sustentabilidade e outras muletas discursivas hoje suplantadas. Para amortecer, mesmo temporariamente o desemprego, para aproveitar a ligeira folga orçamental e o novo quadro de apoio europeu, para ganhar eleições e fazer esquecer tristezas, eis que se escolheu
o cimento."
"O choque do betão" por Bernardino Guimarães in Jornal de Notícias 15.04.2008
Nem sempre concordo com o que se diz na comunicação social em matéria de Ambiente… desta vez sim!
Como qualquer processo de tomada de decisão, governar implica estabelecer prioridades. Com o aproximar das eleições, as prioridades dos nossos governates baralham-se sempre um pouco! Longe de trabalhar no sentido de satisfazer as necessidades básicas dos portugueses de forma sustentável e duradoura, o Estado encarrega-se de "dinamizar a economia", movimentando o sector da construção com grandes investimentos. Isto significa que, em breve, Portugal terá TGV, novo aeroporto, mais barragens, mais pontes e mais estradas, com custos ambientais maiores ou menores conforme as sucessivas decisões forem piores ou melhores. Fica por saber quantos portugueses continuarão sem acesso rápido e fácil aos serviços de saúde e educação, quantos núcleos habitacionais continuarão sem saneamento básico, quantos dos novos equipamentos serão construídos em zonas de risco (ex. os leitos de cheia de rios e ribeiras)…
Dá ideia que o nosso Estado pretende construir a casa começando pelo telhado!
Susana Garcia